Quanto
sentimento cabe em um acontecimento?
Texto: Jana Lauxen
Fotos: Bia Barzotto e Fernão Duarte
A inesquecível noite de lançamento do livro Pequenos Escritores do Rui Vol. 3 foi o
ápice de um trabalho que iniciou em sala de aula, no início deste ano.
O desafio era grande: trabalhar os gêneros “autobiografia”
e “autorretrato” com alunos do 3º ano do ensino fundamental do Colégio Sinodal Rui Barbosa, de
Carazinho/RS, estimulando-os a escrever e desenhar sobre sua vida e identidade.
O resultado deste projeto corajoso emocionou e surpreendeu,
não só as professoras, mas a direção e a coordenação do Rui, e é claro, a Editora Os Dez Melhores também.
Todos sabiam: o material que tínhamos em mãos era
muito precioso.
Porque, mais do que relatar seu último
aniversário, suas férias, seu brinquedo favorito ou qualquer outro episódio
relevante de suas vidas, os pequenos escritores contaram como se sentiram diante do que vivenciaram.
Esta mistura de acontecimentos e sentimentos
gerou textos e desenhos de uma riqueza extraordinária. O livro não é apenas
baseado em fatos reais; é fundamentado em emoções verdadeiras.
Porque vieram à tona sensações boas, leves e alegres, mas também desagradáveis, desconfortáveis, doloridas – que existem e com as quais é necessário saber lidar. Os ganhos e as perdas. As esperanças e a saudade. Os sonhos e os medos. As frustrações e as realizações. A alegria e a tristeza. Os altos e os baixos da vida.
São textos fortes, intensos e bonitos, que nos
colocam em contato com a criança que a gente já foi.
É impossível ler Pequenos Escritores do Rui Vol. 3 sem sentir na pele cada história.
Mais do que páginas e letras, traços e palavras, o livro vem recheado de lições
e inspirações, indagações e observações, estimulando para muito além de nossos
cinco sentidos, numa sinestesia vibrante.
Eu, responsável pela edição e revisão desta obra,
admito: precisei interromper várias vezes o trabalho, porque a emoção tomava
conta, transbordava pelos olhos, embaçava os óculos.
Ocorre que, durante o processo de produção do
livro, em contato com o Colégio Rui Barbosa, eu vi nos olhos das professoras, dos
funcionários, do diretor, da coordenadora, o mesmo transbordar, o mesmo embaçar
de óculos. Uma comoção incontida e sincera que ressoa daquele lugar tão íntimo,
onde dormem nossas emoções mais queridas. Algo nobre, que nasce do
envolvimento, do comprometimento, do amor e do entusiasmo de quem sente o que faz, e não apenas faz.
Durante a noite de lançamento, que aconteceu dia
15 de agosto de 2019, eu vi este brilho no olhar de muitas pessoas.
As professoras Camila Vargas Barbieri, Cristiane
Hermes Santos e Solange Rupp Staffen, responsáveis pelo trabalho em sala de
aula, traziam faróis em seus semblantes. A coordenadora dos anos iniciais, Carine
Mokfa Leiria, manteve a mesma visão marejada que tantas vezes vi em seu rosto.
O diretor Adilson Leonhardt Franck já nem tentava
disfarçar; só deixava o coração pulsar e falar.
A emoção era contagiante, luminosa e
deslumbrante.
Então, após o evento, enquanto selecionávamos as
fotos para compor o álbum de lançamento, eis que nos deparamos com esta foto
aqui, da Mariana Bordeghini Guareschi, uma das pequenas escritoras do Rui:
Repare seus olhinhos.
É a esta emoção que eu me refiro.
O olhar da Mariana nesta foto é o mesmo olhar que
eu tantas vezes vi refletido na tela do computador; é o olhar do Adilson, da Carine,
da Camila, da Cristiane e da Solange; é o olhar da Marinilce Schmitz,
responsável pelo prefácio do livro e madrinha deste projeto.
É o olhar que estava estampado no rosto de cada
família.
É o olhar que reluzia de cada pequeno grande
escritor.
É o olhar que estará em teus olhos, amigo leitor
e amiga leitora, ao ler este livro que é muito mais do que um livro; é uma
experiência emocional profunda e arrebatadora.
E o mais fantástico é que estes 59 pequenos
escritores do Rui, aos 8 e 9 anos, já estão lidando com seus sentimentos, e
aprendendo a identificá-los e diferenciá-los, reconhecê-los, entendê-los,
amá-los.
Assim, aproximando-se de suas emoções,
transformando situações em sensações e eventos em sentimentos, os pequenos se
agigantam, tornando-se não apenas autores de textos e desenhos, mas de sua própria
história.
Sem contar que daqui a 10, 30, 50 anos, ao reler
as páginas que escreveram na infância, como estes 59 pequenos escritores irão
se sentir?
O que irão pensar? Como irão reagir? De tudo, só
uma certeza: será impossível não deixar-se envolver e emocionar.
A noite de lançamento do Pequenos Escritores do Rui Vol. 3 foi o ápice de um trabalho que
iniciou em sala de aula, mas de modo nenhum representa seu desfecho.
Porque este livro seguirá de mão em mão, de olhar
em olhar, de coração em coração, tempo afora.
Por muitas e muitas estações, ele ainda embaçará óculos e banhará
olhares com lágrimas incontidas, que nascem da criança que todos nós fomos.
Que nós ainda somos.
Que nunca deixaremos de ser.